UMA GRANDE HISTÓRIA
A gente sabe que viveu uma grande história
Quando, do nada, a gente percebe que ficou um bom tempo
Surtado, ausente, longe... E quando voltamos a nós
Nos sentimos, tão leves, tão plenos, tão felizes
Por causa de uma lembrança tão espontânea e tão forte
Que nos tirou do ar, mas que nem
A gente sabia que era tão grande...
Nem a gente sabia que era uma grande história...
Ter vivido uma grande história é coisa que a gente só sabe
De repente e quase sem querer.
A gente sabe que vive uma grande história quando a gente pára
Numa manhã cinzenta ou azul ou verde...
Ou numa noite escura ou brilhante ou azul também...
E a gente sente a leveza da nossa própria história dentro da gente
Ou o peso, mas sempre da nossa história.
Ou numa tarde avermelhada, estática, dotada de um brilho colado no cinza
Quase branco de tão amarelo dourado indo embora...
A gente sabe que vive uma grande história assim,
Quando no meio disso,
A mão vai ao copo,
O fumo ao ar,
As capas dos livros se encontram,
A rua se cala,
A solidão tira férias
E até o desejo... Não deseja.
E até a saudade... Não saudadeia.
E a dor... Também não.
Porque uma grande história
Não se fala com a boca,
Não se conta com palavras,
Não se escreve;
Sente-se...
Entorpece...
A gente sabe que vive uma grande história quando um pequeno lampejo,
Um surto surpreende a gente
E a gente não sente falta de nada:
Pura completude.
Quando a gente fica tão pleno que a gente é mais que o lugar,
Mais que o copo,
Mais que o fumo,
Mais que a rua,
Mais que o livro,
Mais que o desejo,
Mais que a saudade,
Mais que a gente...
Uma história grande não é feita de acontecimentos longos:
É feita de acontecimentos fortes.
Tão fortes que quebram as nossas estruturas
E a gente sabe, sem saber,
Que algo valeu a pena...
Que alguém é inesquecível...
E que uma grande história é inexpressível...
E que o momento pleno, filho de uma grande história,
É quase um sonho, só que verdadeiro. |